Para o dirigente petista, o partido precisa se rejuvenescer e dialogar com as bandeiras políticas do século 21

O prefeito reeleito de Araraquara (SP), Edinho Silva, declarou em entrevista ao jornal Valor Econômico que o PT não soube incorporar as bandeiras do século 21, tais como a diversidade sexual e questão do meio ambiente.

Silva considera que a bandeira da corrupção ainda é um forte catalisador de ódio contra o PT. “Não tem nada que estimula mais o antipetismo do que a corrupção. Aqui em São Paulo, todos os prefeitos do PT dizem isso. É real e concreto”, disse.

O ex-presidente do PT também afirmou que a sigla precisa “fazer uma avaliação muito honesta de 2020, sem achar mocinhos e bandidos”. Edinho Silva também afirmou que o PT “vive um quadro de extrema dificuldade” e que as avaliações que não considerem isso não serão “correta e honesta”.

“A partir daí é possível fazer um caminho de reorganização partidária, de reconstrução e construção de bandeiras, e também de estratégia para neutralizar a dificuldade de diálogo que temos com a sociedade. É nítido que estamos tendo dificuldade imensa de diálogo com a sociedade. O PT retroagiu no Brasil inteiro e em São Paulo nós recuamos muito”, analisou.

Sobre a reorganização partidária e atualização das bandeiras defendidas pelo PT, Silva afirmou que faz tal discussão desde 2013 dentro do partido. Citou a nova classe trabalhadora de aplicativos digitais que segue sem “angustiada e sem representação”.

“Os entregadores de aplicativos. Isso é muito maior do que a gente pode dimensionar. E pegue os trabalhadores que se incorporaram ao setor de serviços para a sobrevivência. Essas ‘novas profissões’ não têm interlocução com os movimentos sociais tradicionais. Não se sentem representados”, declarou.

Em seguida, Edinho Silva criticou o fato de o PT ter perdido a conexão com a população LGBT. “O PT, por incrível que pareça, perdeu muito espaço com a população LGBT. Os partidos mais novos da esquerda cresceram muito nesses setores. A esquerda, de forma geral, perdeu a bandeira do bem-estar animal. Essa bandeira tem que ser da esquerda, porque traz a questão da sustentabilidade. E nós não vimos a esquerda tratando disso. A direita se apropriou”, disse Edinho.

Todavia, Silva considera que toda a esquerda tem tido muita dificuldade em dialogar com os setores que surgiram no século XXI.

“A esquerda tem extrema dificuldade em dialogar com novas bandeiras: as novas profissões, esse novo mundo do trabalho, os temas emergentes do século 21, a diversidade sexual, o bem-estar animal, a sustentabilidade. E há uma bandeira que será importante, e precisa ser da esquerda: o cooperativismo. É algo muito potente desses setores excluídos do modelo tradicional de produção. Trabalhadores colocados à margem na pandemia não vão voltar ao processo produtivo tradicional. 2013 deu sinais de qual seria a pauta prioritária do século 21. Ficamos refratários e não conseguimos interpretar. O representante não pode ser o corpo estranho do representado”.

Silva também criticou o fato de Fernando Haddad não ter saído candidato. Para o prefeito de Araraquara, se Haddad tivesse disputado a eleição municipal da cidade de São Paulo teria aproveitado o recall da eleição de 2018 e a conjuntura teria sido completamente outra. “Respeito, mas não concordo com a decisão dele de não disputar. Se ele tivesse disputado, o cenário em São Paulo seria outro. O balanço de 2020 seria outro”, criticou Silva.

O dirigente do PT afirma que Manuela D’Ávila se firmou como um quadro nacional, mas também Marília Arraes (PT-PE) e Boulos, no caso deste, Silva afirma que ele é agora uma figura de peso nacional e que o PT não o tratá-lo de maneira distinta. A questão que Silva coloca é: como o PT vai dialogar com Boulos?

Também afirma que Boulos ocupou um vácuo a partir de um erro do PT. “O erro do PT fez com que nós consolidássemos uma grande liderança da esquerda brasileira. A pergunta que fica é: como é que o PT vai lidar com esse processo daqui pra frente? Boulos é hoje uma liderança com muita musculatura. Qual é a relação que o PT vai estabelecer com ele daqui pra frente? Essa pergunta precisa ser respondida”, declarou Edinho Silva ao Valor.

Questionado sobre a possibilidade de uma frente de esquerda para 2022, Silva afirma que será necessário um amplo diálogo, que também envolva PDT e PSB. Todavia, pondera que “Ciro Gomes tem sido muito ácido”. Silva destaca os esforços de Lula no que diz respeito ao diálogo com Ciro Gomes, mas, diz que não é possível saber quais serão os próximos passos do candidato do PDT.

Sobre o cenário para 2022, Silva afirma que Bolsonaro é um forte candidato para 2022. “Bolsonaro conseguiu dar vazão e materialidade a um conservadorismo que sempre existiu no Brasil, mas muitas vezes se sentia constrangido. Ele legitimou esse conservadorismo. Se nós não entendermos isso, dificilmente vamos recolocar o Brasil no caminho de um país verdadeiramente democrático e inclusivo, que considere nossa desigualdade e diversidade”, disse.

E para derrotar a extrema direita em 2022, Edinho afirma que é necessária a organização de uma frente de esquerda, mas também que vá além e componha com todos aqueles que se considerem progressistas e democráticos. “O PT tem que se abrir para esse diálogo. É importante que se dialogue com o PSDB, o MDB, com o Cidadania, com setores do DEM e do PP, do Republicanos, e assim por diante. Com os partidos que reivindicam essa essência democrática, principalmente o PSDB e o MDB. A gente tem que se abrir para esse diálogo, fundamental”, disse.

Por fim, Edinho afirma que o PT precisa se rejuvenescer para se reconectar com a população. “O PT tem que se rejuvenescer. E não é questão etária. É sensibilidade para o que o Brasil vive no século 21, novas demandas, novos interlocutores. O velho pode ser inspiração e o novo pode carregar o velho.

Um dos erros cometidos na história, por falta de compreensão, e maior desastre do século 20, foi o nazismo. Tem algo que precisa ser derrotado no Brasil. E esse algo é o autoritarismo, a negação da democracia, a negação de um país que seja inclusivo e respeite a diversidade racial, sexual e de etnia. Não podemos achar que a esquerda sozinha dá conta de recolocar o Brasil no caminho da democracia. Precisa conversar com os partidos de centro e ter uma agenda conjunta com eles”, analisa.

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